Debate da Globo: um bom formato.
Daniel | 29 de outubro de 2010 | Comentários 0
Acabo de assistir ao Debate Eleitoral à Presidência promovido pela Rede Globo e concluo ser este o melhor de todos os formatos apresentados nesta eleição. Aliás, a Globo já vem com esse formato mais interativo há algum tempo. Um bom formato para Eleição de segundo turno.
Comparado com os debates anteriores, de formato “embate direto”, não resta a menor dúvida que neste de hoje o candidato é mais exigido e fica mais exposto. As respostas-prontas são mais difíceis. As fugas cínicas da pergunta do outro são inviáveis, o discurso enfim fica menos eleitoreiro e mais diluído, afinal há pessoas de carne e osso logo ali ao lado perguntando e esperando respostas.
É então que eu vejo dois pontos a serem repensados, ou melhor analisados. Justamente o caso dessas pessoas e de suas perguntas, e como essas perguntas foram distribuidas entre os candidatos.
Percebi o quão artificial foi “o perguntar”. As perguntas pareciam terem sido elaboradas não pelos próprios participantes da platéia. Era [quase] visível estarem lendo um texto de outra pessoa, tamanho desconforto e necessidade de ler o que estava escrito no pequeno texto em papel. Apesar de serem todas pessoas comuns, não acostumadas ao estrelato e às cameras de televisão, estúdio e coisas do tipo, faltou naturalidade e espontaneidade, até um possível nervosismo de uma fala natural, para que a platéia tivesse um sentido maior no debate, funcionasse diferente naquela dinâmica e assumisse uma identidade mais próxima da realidade do eleitor médio brasileiro. Pareciam todos presos em uma camisa de força e lendo um texto que não lhes era original.
O segundo ponto a ser pensado é quanto “a escolha” tecnológica de qual pergunta seria feita a cada candidato.
Sorteado o candidato A para iniciar o bloco respondendo, este, de imediato já seria o candidato que teria mais tempo de resposta, devido ao beneficio da “tréplica”. Pergunta-se: por que tréplica se não estava havendo embate direto ou confronto de resposta diante à pergunta do outro candidato? Afinal, tratava-se de uma simples pergunta “neutra”, formulada por um terceiro, em que haveria resposta dos dois candidatos.
Agora vem o filé da questão.
Em havendo tréplica, ou seja, em um dos dois candidatos tendo a vantagem de mais tempo de resposta do que o oponente, por que a pergunta-em-si foi escolhida por via tecnológica, às escondidas? O candidato aperta um botão e sabe-deus-quem escolhe que pergunta ele terá quatro minutos pra responder – ao invés dos dois minutos do oponente.
Sacaram a questão? Quem inicia respondendo tem mais tempo de resposta, tem a vantagem da tréplica e em nenhum momento fica claro o processo de escolha dessa pergunta. E não me venham dizer que a escolha da pergunta é feita por um software.
A saber, o candidato José Serra iniciou respondendo no primeiro bloco. Teve, o tucano, a vantagem de responder por quatro minutos questões sobre “Funcionalismo Público” e sobre “Corrupção”. Já a candidata Dilma Rousseff teve a vantagem de responde sobre “Agricultura” (sim, Agricultura) e “Segurança Pública”.
No segundo bloco, Dilma iniciou e respondeu por quatro minutos pergunta sobre “Saneamento Básico”, e no último bloco José Serra teve a oportunidade de responder por quatro minutos sobre “Programas Sociais”. Assim se seguiu o debate. Agora repito: como se escolheu o que cada candidato responderia? Um software ligado àquele painel? Portas-lógicas aleatórias? Não sei. Só sei que eu, em assessorando um candidato à Presidência, iria solicitar a boa e velha técnica do papel dobrado, e dentro do pote – pote transparente e papéis cortados simetricamentes e com mesma densidade corpórea.
Parece bobagem, mas de imediato essas duas questões me saltaram aos olhos: a platéia enclausurada e o método de escolha das perguntas.
Enfim, achei um bom debate. Esclarecedor e limpo. Bom formato. Mesmo que seja um formato voltado para a classe média – o povo quer mais o formato do embate direto – vi uma boa oportunidade para se mensurar diferenças entre os candidatos. Ambos souberam tirar proveito da oportunidade. A democracia agradece.
Abraços,
D.
p.s.: ah, sobre os potes com papéis cortados simetricamente e com mesma densidade, digo: sim! detalhes vencem guerras.
Categoria: Marketing Político
Sobre o autor: é Filósofo, estudioso em Psicanálise, graduando em Ciências Sociais e, Publicidade e Propaganda. Profissionalmente atua em Consultoria Política nas áreas de Branding Político, Análise do Discurso e Planejamento Estratégico.









