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Marketing Político: prática vs teoria?

Falar de Marketing Político é necessariamente falar de vários aspectos da sociedade e vários outros campos do saber científico. Então porque distinguir prática e teoria?

Na verdade, dialeticamente penso que Prática e Teoria são a mesma coisa, apenas em dois momentos distintos de ser. Porém o “na prática” é uma forma de reafirmar um modus estritamente independente do que se é apreendido em livros, faculdades e coisas do gênero.

Prática em Marketing Polítco é a vivência in locu de como se move o tabuleiro político. Como se movem suas personagens, como é o dia-a-dia de um gabinete parlamentar, ou executivo, como funcionam os corredores das Instituições, etc. É saber distinguir o cheiro de queimado sem precisar teorizar o que é uma combustão. O que quero dizer com isso exatamente? Lembro uma experiência particular para entendermos melhor.

Passei três anos no curso de Ciências Sociais da UFAM, início dos anos 2000. Local que oferta boa teoria sociológica como ferramenta de trabalho e bom ambiente de interlocução com outros saberes. Agora imaginem minha surpresa ao ver o abismo que havia entre teoria de sala de aula e a prática de gabinete parlamentar quando fui à campo trabalhar?! Abismo descomunal. Marx’s e Weber’s se não adequados ao dia-a-dia das pessoas, ao jogo prático dos grupos de pressão, ou à análise crua do sistema vigente, de nada valem. É em campo que as coisas acontecem.

Então, se é em campo que as coisas acontecem…

Há quatro anos assumi cargo de diretoria em determinado grupo político. Tive, obviamente, que montar equipe de trabalho. Desafio posto, o que fazer e por onde começar? Evidente que mesclei gente de dentro do processo, com “prática”, e gente “descontaminada”, amigos da UFAM, de minha confiança e com amplo conhecimento teórico – hoje já Mestres e Doutorandos. Equipe balanceada, serviu-me àquele propósito, ao que eu precisava daquele grupo e naquele contexto de trabalho. Porém, ficou evidente o descompasso de posicionamentos entre ambos os micro-grupos, os da prática do dia-a-dia e os ‘descontaminados’, da teoria. Experiência lapidar que daria um fenomenal estudo de grupo.

É então, justamente neste descompasso, que vejo surgir o primeiro grande desafio do Marketing Político. Mesclar necessariamente prática e teoria.

Um cara só prático, que vive ou cresceu no mundo da Política, conhece tudo do dia-a-dia político-institucional, tem trânsito amplo entre os atores-políticos, mas que nunca teve contato com teorias sociológicas ou conhecimentos teóricos de marketing, antropologia de consumo, sociologia urbana, teoria do sujeito, dinâmica das massas, etc. certamente colocará seu cliente em furadas, quando o assunto requerer análise mais aprofundada. Acredite, para uma boa ação política é preciso ler Pierre Levy, Manuel Castells, Zigmund Baumam…  dentre outros, a então compreender que sociedade é essa nossa? e ­- destaco aqui – o que é esse fenômeno das Redes Sociais digitais?, que hoje ajudam a mudar comportamentos, reposicionar sujeitos e criar um novo tipo social.

Normalmente os caras da prática não têm esse conhecimento. Assim, o político (cliente) fica fragilizado e em franca condição de cometer erros graves de posicionamento, ou na melhor das hipóteses perder desenvoltura em estratégia comunicacional e política.

O exemplo pontual disso que falo acima foi a entrada desastrosa do atual prefeito de Manaus, o sr. Amazonino Medes, nas redes socias e no mundo digital*.

Amazonino tem rejeição historicamente cada vez mais crescente, principalmente dentro do grupo social que consome internet em Manaus. Então, como ele poderia se expor, via midias sociais, sem antes preparar o terreno? Como lançar o nome de Amazonino numa área hostil a ele e sem estratégias de atuação, de crecimento e de defesa? ou ainda sem base de apoio? Erro crasso! Neste caso, ao pessoal da prática a falta de teoria foi desastrosa ao cliente.

Doutra sorte, quem tem sólida formação acadêmica, ou ampla expertise em determinada área, mas nunca pisou num rip-rap para panfletar, ouvir a voz do povo, tomar sol na cara, bandeirar em nós de trânsito ou participar da prática diária de gabinetes parlamentares, certamente ficará mergulhado naquela masturbação teórica, e, por conseguinte, sem condições de desenvolver um trabalho completo em assessoria ou marketing político. Se muita sorte tiver apenas incorrerá no risco de elaborar estratégias desconformes com a realidade das pessoas, ou que na prática se mostram inexequíveis. A famosa “visão-de-mundo de gabinete” é a ruína do pessoal teórico.

Outro risco, maior neste caso, e de consequências tão desastrosas quanto a do “case Amazonino” é o desconhecimento do timing político por parte da maioria dos teóricos. Por nunca terem participado de grupos políticos, ou por pouca experiência prática,  desconhecem como estes grupos se movem internamente. Desconhecer a dinâmica interna dos grupos é pecado capital.

Neste caso cito o exemplo de Marcelo Branco, especialista em Mídias Sociais e Comunicação Digital que participou da Campanha à Presidencia de Dilma2010. Marcelo conhece tudo sobre comunicação digital, mas cometeu o erro de ser inexperiente quanto à prática polítca. No início da campanha presidencial quis “obamar” e colocou a então candidata (também inexperiente) frente à frente com os eleitores via youtube. Vídeos razoavelmente produzidos, mas péssimamente dirigidos, e no tempo errado de campanha, expuseram uma Dilma sem preparo e na hora errada. Resultado: desastre.

Marcelo foi afastado do Comando Digital e João Santana assumiu amplamente a Campanha. João, profissional já tarimbado, da escola de Duda Mendonça e com várias campanhas no curriculum, corrigiu então os rumos, tirou Dilma de cena – ação óbvia para qualquer neófito em Marketing Político – e colocou Lula à frente da imagem da candidata. Marcelo Branco, qualificadíssimo em Comunicação Digital, passou o resto da campanha brincando de twitter. O resto é história.

Resumindo que, a simbiose entre prática e teoria é essencial. Ao candidato cabe saber mesclar as peças e sempre ter em mão profissionais qualificados, com visões-de-mundo baseadas tanto na prática quanto na teoria, pois que uma não existe sem a outra. Prática e Teoria são a mesma coisa, vista de prismas diferentes. Uma não há sem a outra, principalmente em Marketing Político.

Abraços
D.

* (comentarei mais sobre o case Amazonino após as Eleições 2012, ou quando esta já estiver definida)

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Categoria: Marketing Político

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Sobre o autor: é Filósofo, estudioso em Psicanálise, graduando em Ciências Sociais e, Publicidade e Propaganda. Profissionalmente atua em Consultoria Política nas áreas de Branding Político, Análise do Discurso e Planejamento Estratégico.

RSSComentários (2)

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  1. Helena Marinho says:

    Colocaste muito bem quando citou o “case” do Amazonino nas redes sociais. Podemos observar que foi desastroso em todos os aspectos. Nem sempre executar torna um trabalho versátil. Antes de executar devemos
    DIAGNOSTICAR, ANALISAR, PLANEJAR E EXECUTAR.
    Parabéns, Daniel pelo belíssimo texto!

    • Daniel says:

      Verdade Helena. O “Executar” é apenas a ponta da lança. Formato, material, força empregada, sentido e direção… enfim, a lança em si vem bem antes da ponta.
      E ainda sobre o “case Amazonino” vejo que é, ou foi, uma proposta não só de divulgar seus feitos, mas também de “minar adversários” via mídias sociais. Análise também equivocada, mas isso é assunto para outro momento.
      Obrigado pela interação. Abraços.

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