Uma Eleição de sentido histórico.
Daniel | 31 de outubro de 2010 | Comentários 0
Por cerca de quatro meses acompanhamos o embate direto de dois grupos políticos na busca do sucesso eleitoral neste pleito. O clima de eleição vem, pelo menos, desde o começo do ano, mas foram nestes meses de setembro e outubro que subiu à temperaturas elevadíssimas. Era uma eleição necessariamente estratégica do ponto de vista histórico. Projetos de Poder estavam em jogo. Não ia ficar barato. O PT pretendendo fincar suas raízes por mais doze anos, e chegar aos vinte anos de poder, teoria outrora ventilada. E PSDB lutando de todas as formas para isto impedir e voltar ao posto de grupo dominante – e então refazer o seu próprio projeto de poder, fracassado na análise econômico-social por ele mesmo feita em fins dos anos noventa.
A Era Lula é uma realidade. Quer tivesse sido José Serra o vitorioso, quer seja a Dilma Rousseff – como o foi – vitoriosa, a verdade é que o Brasil é um antes, e outro depois de Lula. Eis que teríamos então um ingrediente a mais em disputa: a História.
PT e PSDB não estavam em uma simples eleição qualquer. Não se tratava de uma escolha de rainha da quermesse. Seriam necessários uma boa estratégia, um time qualificado, análises sociológicas precisas e muito feeling histórico para lograr êxito sem depender da sorte. Tínhamos [e temos ainda] uma “dobra histórica” em pleno desenvolvimento. Não só pelo cenário Brasil, mas também pelo que ocorre no mundo, principalmente no setor das comunicações e, mais ainda, das relações sociais. Falo da Internet e também da liberdade do Sujeito.
A Internet é uma revolução tão potente que por vezes passa silenciosamente sem ser notada em sua profundidade de sentido. Cumpre o sentido integral da palavra “revolução”, que é revolver a terra e fazer aflorar o novo. Uma Revolução, silenciosa é verdade, mas historicamente tão importente quanto a Revolução Industrial, dos séculos XVIII e XIX, ou a Agrícola, de tempos pré-históricos. Trata-se de um episódio que vem a mudar o arranjo mental da sociedade, e tão logo começará a mudar também os meios de produção – Marx à parte, isso é assunto para outro momento, não compliquemos, fiquemos por ora com o sentido de “dobra histórica”.
O fato é que o grupo político, o Partido Político falando diretamente, que tivesse esse saque epistemológico de como se constrói o saber histórico e que percebesse essa “dobra histórica”, com o sujeito ganhando um pouco mais de autonomia existêncial, e por tabela, autonomia social, sairia na frente.
Sinceramente, não sei se algum Partido sacou isso, mas ao PT foi mais fácil incorporar, mesmo que sem querer, esse sentimento em seu conceito de campanha. Afinal, na prática, em seus oito anos investiu mais em capital social que o PSDB em seus também oito anos de governo.
O preço a ser pago por uma nação que não escreve a sua própria história é muito alto. É o vazio identitário. A Identidade social de um povo é construída à ferro e fogo, ou seja, na prática. Na fome ou no alimento, na falta de escola ou na educação, no desemprego ou na cidadania de se estar empregado e assim por diante.
Esta eleição, portanto, estava para além de simples disputa entre Serra e Dilma. Era preciso a reconhecer como História. A reconhecer como História que ultrapassa disputas entre grupos políticos. A recohecer em História para além do tempo presente. Enfim, em História como produção de identidade. Produção de identidade de um povo. Povo? Mas qual povo? Que povo?! Essa era a questão a ser respondida antes de qualquer coisa. Antes de qualquer composição política ou de qualquer estratégia, pois, Eleição é um fenômeno social, e não político.
Deveria ter sido uma Eleição de união. De esperança. De construção da identidade do povo brasileiro, pois que vivenciamos sim uma “dobra histórica”, e acreditem, não temos isso todo dia.
Parabéns aos vencedores, e sabedoria aos derrotados. O Brasil é um só.
Abraços,
D.
Categoria: Marketing Político
Sobre o autor: é Filósofo, estudioso em Psicanálise, graduando em Ciências Sociais e, Publicidade e Propaganda. Profissionalmente atua em Consultoria Política nas áreas de Branding Político, Análise do Discurso e Planejamento Estratégico.









